A Rede, meio século antes
por Felipe Bueno
Passado o habitual tumulto que antecede e sucede o anúncio dos vencedores do Oscar, volto minha atenção a um filme que neste ano completa 50 anos de maneira terrivelmente atual. Network, traduzido para o Brasil como Rede de Intrigas, com roteiro de Paddy Chayefsky e direção de Sidney Lumet, é ao mesmo tempo um histriônico retrato satírico do jornalismo de então e uma profecia não intencional sobre como tudo iria piorar no futuro. A história começa quando o veterano âncora Howard Beale, em seus últimos momentos à frente de um telejornal, anuncia ao vivo que irá se matar. O pandemônio que se segue é logo substituído pela sensação de oportunidade no ar, literalmente: o programa de audiência decadente de repente ganha repercussão nacional. Dobrada a aposta, Beale, com sua instantaneamente famosa bravata I’m as mad as hell, and I’m not going to take this anymore! passa a ser encarado como um profeta, ou, no mínimo, uma voz que representa boa parte da população dos Estados Unidos, que está irritada e não vai aguentar mais. O quê? Qualquer coisa. Tudo.
Rico em diálogos cínicos e elaborados, o filme mostra como a prevalência da busca por espectadores e repercussão ao compromisso jornalístico não é exclusividade dos tempos atuais. Apenas as ferramentas e a intensidade mudaram: ontem eram os rankings de audiência, hoje são os cliques e os likes.
Emblemática, a disputa entre o jornalismo da velha guarda e a busca pelo impacto, sendo a verdade algo indiferente, parece inofensiva e até caricata em 1976 se compararmos com os perigos dos algoritmos e da inteligência artificial meio século depois. Mas o filme de Sidney Lumet não para por aí: ainda temos uma boa aula de geopolítica dos tempos pré-globalização, na qual as corporações mandam mais que as nações e seus governos constituídos. Toda uma profecia.
Para um grande filme, um grande elenco: Peter Finch, Faye Dunaway, Robert Duvall, William Holden e outros têm, cada um a seu modo, participações intensas, sem as quais a história não seria tão bem contada, ou melhor, a fábula não seria tão bem entendida. O aviso havia sido dado. Era o ano de 1976.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
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Gaspar Alencar
26 de março de 2026 3:28 pmComo diria o poeta – ainda não vimos nada! Eu, vivo e não vejo tudo, paráfrase!